quarta-feira, 7 de julho de 2010

Guiné Bissau: atos do governo provocam ameaçada de sanções internacionais


A Guiné Bissau passa por um momento de crise em suas relações internacionais motivado por decisões tomadas pelo governo do Presidente Malam Bacai Sanhá. O estopim da crise atual foi a nomeação do general António Indjai (foto) como Chefe do Estado-Maior interino das Forças Armadas, enquanto o antigo titular do posto, Zamora Induta, continua preso. A Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) acena com a possibilidade de sanções contra a Guiné Bissau, pois o General Indjai foi um dos militares que dirigiu um grupo de soldados revoltosos na origem da detenção do almirante Zamore Induta e do Primeiro-Ministro, Carlos Gomes Júnior, em abril deste ano, ação que foi considerada, a princípio, como uma tentativa de Golpe de Estado. A última reunião da CEDEAO que seria realizada justamente na Guiné Bissau nos dias 28 e 29 de junho foi cancelada em sinal de protesto. "Não compreendemos (a decisão da Guiné-Bissau) e não a aprovamos", declarou o presidente da Comissão da CEDEAO, James Victor Gbeho. A nomeação também foi criticada pelos EUA e pela União Européia.
Outro revés para a diplomacia guineense foi o cancelamento da viagem que o Presidente Lula faria ao país no último domingo, também em represália à nomeação do militar revoltoso, muito embora este não tenha sido o motivo oficial do cancelamento divulgado pelo Itamaraty. Lula disse que o Brasil só prestará ajuda econômica à Guiné-Bissau se o país resolver seus conflitos políticos internos. “Saibam os dirigentes de Guiné-Bissau que quanto mais divergência tiver, quanto mais brigas internas tiver, mais difíceis serão as ajudas que teriam que vir de outros países, sobretudo dos países mais desenvolvidos”. O encontro de Lula com o Presidente Sanhá ocorreu em Cabo Verde.

UNMIS: autoridades censuram jornal no Sudão

As agências de notícias internacionais que fazem a cobertura do Missão de Paz da ONU no Sudão- UNMIS – noticiaram nesta quarta-feira que o jornal sudanês AlTayyar , em circulação na região sul do país, foi censurado e teve sua circulação impedida pelo serviço de segurança do Sudão no dia de ontem, conforme informou à AFP o editor-chefe Osmane Mirghani. Ações deste tipo já estão se tornando rotina naquele país africano, pois as autoridades já haviam censurado outros veículos independentes e de oposição, em maio e junho deste ano. Em comum entre os veículos de comunicação censurados estão as duras críticas ao governo local.
A região sul do Sudão realizará um referendo sobre a independência da região em janeiro de 2011. Em contrapartida , o Presidente sudanês, Omar Hassan Ahmad al-Bashir (foto), tenta garantir a unidade nacional, promovendo ações para evitar a separação dessa localidade.
A censura imposta, embora condenada pela comunidade internacional, encontra respaldo nas leis locais onde a chamada “Lei de Imprensa” reconhece a liberdade de imprensa no país, desde de que não afete os limites da moralidade pública e da segurança nacional, já que o país tem maioria da população muçulmana. A Segurança Nacional é o motivo alegado pelo governo para justificar as sanções.
Fatos como o narrado acima nos dão uma noção da dificuldade do trabalho exercido pela ONU no Sudão, a qual tem, entre outras missões, o propósito de pacificar a região e de auxiliar no processo do referendo para que este seja conduzido de forma democrática e transparente. No entanto, encontra condições adversas impostas justamente pelo próprio governo e seus agentes.

Fonte: site do UOL

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Boina Azul: um sentimento passado de pai para filho

A participação em uma Missão de Paz das Nações Unidas é uma experiência profissional e de vida sem igual. Todo veterano de missão sabe do que eu estou falando. Não interessa em qual missão ou em qual continente o policial desenvolveu suas atribuições de United Police - UNPOL, nem se ele participou de uma ou mais missões. O certo é que a participação, por si só, já é motivo de realização pessoal e de orgulho para familiares, amigos e colegas de farda. Imagine então se esta experiência fosse vivenciada por pai e filho, ambos Oficiais da Polícia Militar, em épocas diferentes. Pois foi exatamente isto que ocorreu na Polícia Militar do Distrito Federal - PMDF.
Pai e filho vivenciaram esta experiência, um na ONUMOZ e outro na MINUSTAH. Esta história começa em novembro de 1993 quando o então Capitão Sérgio Carrera se apresentou, juntamente com outros Oficiais, para o período de 12 meses de serviço na Missão de Paz da ONU em Moçambique - ONUMOZ. Seu período de treinamento inicial - Induction Training - ocorreu no QG da ONU em Maputo, capital moçambicana como podemos ver na foto abaixo, onde o Cap Sérgio Carrera é o primeiro na esquerda:

Durante sua estada em Moçambique o Capitão Sérgio Carrera desenvolveu várias atividades importantes como UNPOL, conforme podemos verificar nas fotos a seguir onde o oficial aparece durante negociação com autoridades locais e, na segunda foto, atuando como intérprete durante visita do Comandante Geral da Polícia da Suécia a uma delegacia policial moçambicana:Imagino como deve ter ficado orgulhoso o agora TCel RR Sérgio Carrera quando seu filho foi aprovado no processo seletivo do COTER e designado para compor a Missão de Paz da ONU no Haiti em 2007. Pois foi assim, dando continuidade à tradição iniciada pelo pai, que o então 1º Tenente Carrera se apresentou em Porto Príncipe em dezembro de 2006 para exercer as funções de UNPOL. Tive a oportunidade de conviver diariamente com o Carrera por seis meses em Porto Príncipe. Acompanhei o seu trabalho dedicado e qualificado junto à Diretoria de Operações da MINUSTAH, onde chegou, por seus méritos, a exercer a função de Diretor interino. Abaixo algumas fotos do Carrera no Haiti. Na primeira podemos vizualizar um contato mantido em um posto de fiscalização do exército da Bolívia na Rota Nacional 01. A segunda mostra a reunião para o desencadeamento de uma operação policial na periferia de Porto Príncipe. Na última, podemos ter uma visão da favela de Cité Soleil, nesta foto aparece também o TCel Braga da Polícia Militar do Pará -PMPA, o qual era o Chefe de Contingente dos brasileiros em 2007. Tradição de pai para filho...não é à toa que o Capitão Carrera se tornou uma referência a nível nacional quando o tema abordado é o "Serviço Policial em Missões de Paz", pois o assunto, como pudemos constatar, já fazia parte das conversas em família havia muito tempo.

Parabéns à família Carrera!

sábado, 3 de julho de 2010

A paixão haitiana pelo futebol

No período em que estive na missão de paz da ONU no Haiti, entre outras questões culturais, me chamou a atenção a paixão dos haitianos pelo futebol. E o fato curioso é a rivalidade existente entre duas grandes torcidas. Sim, no Haiti ou você torce pelo Brasil ou você torce pela Argentina. A França, devido à colonização, aparece apenas como segunda opção, é impressionante. Podemos comparar esta rivalidade com a existente entre torcidas brasileiras como as de Grêmio e Internacional, Flamengo e Vasco, Corinthians e São Paulo, Figueirense e Avaí, Atlético e Coritiba, Atlético e Cruzeiro, Remo e Paysandu, entre outras. Bom, para os amantes do futebol dá para ter uma idéia da situação. Não foi à toa que o Presidente Lula levou a seleção brasileira para jogar um amistoso com o selecionado haitiano em Porto Príncipe em 2004.
Durante meu período de missão, o segundo mês coincidiu com a realização da Copa América, da qual o Brasil sagrou-se campeão justamente contra a Argentina, vencendo a final por 3 x 0. Impressionou-me a decoração das ruas da capital haitiana com bandeiras brasileiras e argentinas, como na foto abaixo tirada na Rua Delmas, um dos principais eixos de ligação entre a parte alta e o centro de Porto Príncipe. Embora a foto tenha sido tirada do interior da viatura, pode-se visualizar com nitidez as cores verde e amarela nas bandeirinhas bem como uma bandeira brasileira hasteada no canteiro central da pista.
Também era fácil encontrar nas esquinas ambulantes vendendo camisetas e bandeiras das duas seleções, como na foto abaixo.
Quando havia um jogo o país praticamente parava, assim com ocorre aqui no Brasil. No entanto, no Haiti existe um problema sério de energia elétrica, pois como o país não produz energia suficiente, eram poucas as horas do dia em que a população tinha “luz”, somente cerca de 5 a 7 horas diárias. Após esse período, apenas quem tinha gerador podia, por exemplo, assistir a uma partida de futebol. A conseqüência disso era uma multidão de pessoas em volta de poucas televisões de 14 ou 20 polegadas em locais públicos como bares e restaurantes. Lembro que o fanatismo pelo futebol brasileiro e argentino chegava a situações extremas de, por exemplo, um haitiano ter perdido sua casa ao apostar que a Argentina seria campeã. Ou outra história contada pelos funcionários haitianos da ONU de que um haitiano havia, em outra ocasião, apostado a sua esposa. Prefiro pensar que esta última faz parte apenas do folclore do futebol haitiano, pois para mim beira à loucura.
São por estas e outras histórias que as notícias que li hoje pela manhã no site da Globo.com, embora trágicas, não me surpreenderam. Ontem, após o término do jogo do Brasil pelo menos 4 pessoas morreram. Um torcedor teve um ataque cardíaco em Petion Ville e outros três cometeram suicídio. Um dos casos foi o de um jovem haitiano de 18 anos o qual não assimilou a eliminação da seleção canarinho e se suicidou jogando-se embaixo de um veículo próximo ao local onde assistia a partida no bairro Nérette.
Não esqueçamos que futebol é apenas um esporte, daqui 4 anos tem de novo. Espero que tenhamos mais sorte em 2014!

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Tenente do Paraná foi designado para a missão de paz no Sudão

Em breve o contingente policial brasileiro na Missão de Paz da ONU no Sudão – UNMIS – receberá reforço. Trata-se do 2º Tenente Allan Paulo Bassaco Sacchelli da Polícia Militar do Estado do Paraná - PMPR, o qual serve atualmente no 10º Batalhão de Polícia Militar na cidade de Apucarana. O Tenente Sacchelli deverá embarcar ainda neste mês de julho para o país africano, onde se juntará ao Capitão Emerson – PMSC – e ao Tenente Mello – PMESP – na missão de treinamento dos policiais sudaneses, conforme informação dada no post anterior.
O Tenente Sacchelli fez parte do grupo de oito Oficiais que concluiu o curso preparatório no Centro de Instrução de Operações de Paz “Sérgio Vieira de Mello” – CIOPaz – no Rio de Janeiro (foto acima) no final do mês de maio. Foram 186 horas de treinamento durante o período de 30 dias onde os oficiais receberam as mais diversas informações a respeito de uma operação de paz. Entre as matérias ministradas no curso estão noções sobre a estrutura da Nações Unidas, condução de viatura 4x4 em terrenos acidentados, noções de rádio comunicação, primeiros socorros (foto abaixo), missão da UNPOL, armamento e tiro, bem como instrução especializada sobre minas terrestres. Campos minados fazem parte das mazelas existentes em muitos países em que a ONU se faz presente, tanto que existe dentro da estrutura do DPKO (Department of Peacekeeping Operations) uma unidade específica para a questão de desminagem.
Dos oito Oficiais que concluíram o curso no Rio de Janeiro apenas o Tenente Sacchelli foi designado para a missão no Sudão, seis Oficiais já embarcaram para o Timor Leste e outro Oficial do Paraná, o 2º Tenente Leandro de Azevedo Thereza, foi designado para a missão no Haiti.
Em recente entrevista o jornal Tribuna do Norte, o Tenente Sacchelli falou sobre suas expectativas com respeito ao trabalho a ser desenvolvido no Sudão:
sei que o Sudão vive uma guerra entre a região sul e norte. Mas, será algo inédito para mim, já que é a primeira vez que represento o Estado em uma missão como esta. Vou poder ajudar outras pessoas e conhecer uma nova cultura”.

Fonte: site do jornal Tribuna do Norte

quarta-feira, 30 de junho de 2010

UNPOLs vão treinar 16.000 policiais no Sudão

O Coordenador Regional para o Sul do Sudão, David Gressly, declarou em uma coletiva com a imprensa na última segunda-feira em Juba que UNPOLs da Missão de Paz da ONU no Sudão - UNMIS - farão o treinamento de 16.000 policiais sudaneses até o final deste ano. Este treinamento faz parte dos preparativos da ONU e do governo do Sudão para o referendo que será realizado em janeiro de 2011 e decidirá sobre a separação da região sul do resto do país. A ONU vai fornecer apoio logístico e técnico à Comissão do Referendo. Gressly enfatizou que o comando da missão e o Governo do Sudão do Sul estão trabalhando duro para desmobilizar 20 mil ex-combatentes só este ano e que a média de desmobilizados é de 5 a 10 ex-combatentes por dia.
Os UNPOLs brasileiros, Capitão Emerson (PMSC) e 1º Tenente Mello (PMESP), já estão plenamente integrados a atividade de treinamento, como mostra a foto acima em que ambos os oficiais aparecem ministrando instrução de controle de distúrbios civis para uma tropa de choque sudanesa.
Fonte: Reliefweb

domingo, 27 de junho de 2010

Histórias de Missão: A chegada inusitada em Porto Príncipe

Durante a semana que passou, mais especificamente no dia 23 de junho, completaram exatos 3 anos de minha chegada em Porto Príncipe para me integrar a Missão de Paz da ONU no Haiti -MINUSTAH. Já nos primeiros dias de missão comecei a escrever uma espécie de diário onde relatava as impressões sobre o dia-a-dia. O primeiro texto que produzi foi exatamente sobre a viagem e a recepção na capital haitiana, as quais foram cheias de percalços. Compartilho agora com os amigos esta experiência, a qual poderia se encaixar perfeitamente na série "só acontece comigo":
"O período de viagem, entre o embarque e desembarque de aeronaves nas conexões e o tempo perdido nas alfândegas, é o momento em que o policial tem o tempo para refletir e imaginar o ambiente que o espera, as dificuldades que poderá enfrentar e as conquistas profissionais e pessoais que almeja alcançar.
Para nós brasileiros, na maioria das vezes, a viagem é em grupo, fato que ajuda a superar alguns percalços como, por exemplo, o idioma. Cada policial chega a esta fase do processo trazendo consigo um conhecimento prévio sobre a língua estrangeira ligado a realidade que vivencia. Muito embora o teste de seleção aplicado pelo COTER tenha selecionado os mais aptos, alguns policiais veem na viagem de ida para a missão a primeira oportunidade de testar realmente a fluência no idioma fora do país.
Para mim a viagem de ida foi diferente e angustiante, pois não havia outro policial brasileiro comigo e tive que superar os obstáculos sozinho. Esta foi a minha primeira viagem ao exterior, excluindo-se os países de língua espanhola que compõem o mercosul, dos quais tive a oportunidade de conhecer Argentina, Uruguai e Chile. A experiência, apesar de penosa, foi gratificante, pois quanto antes você é testado sobre sua fluência no idioma estrangeiro, mais rápida será sua adaptação ao ambiente de trabalho.
Minha viagem e chegada ao Haiti, bem como meu primeiro contato com a MINUSTAH foram marcantes. Já de início senti os rigores da mudança climática, pois ao desembarcar no aeroporto internacional Toussaint Louverture encontrei um calor escaldante de 42°C. Vinte quatro horas antes eu havia embarcado em Porto Alegre sob uma temperatura de apenas 5°C, normal para o final do outono gaúcho.
A temperatura talvez fosse o prenúncio da situação que eu estava prestes a enfrentar, pois não bastasse o calor, não havia ninguém da Unidade de Induction Training para me receber. Cabe destacar que naquela situação o erro não pode ser atribuído à unidade. O fato é que embarquei no Brasil em pleno início do caos aéreo ocorrido em junho de 2007 em todo o país. Atrasos e cancelamentos de vários vôos ocorreram no dia do meu embarque em Guarulhos, principalmente os com destino à américa do norte e europa. No meu caso específico, o voo sofreu um atraso de aproximadamente duas horas e meia, período em que ficamos dentro da aeronave esperando ordem da torre para inicar os procedimentos de decolagem. A consequência disso foi a perda da conexão em Miami.
Cheguei em Porto Príncipe três horas após o previsto e, como não tive como avisar o setor de pessoal da missão ou mesmo os brasileiros que estavam lá, não havia ninguém me esperando.
A situação no lado de fora do aeroporto era confusa, do ponto de vista do que conhecemos como portão de desembarque internacional aqui no Brasil. Muitas pessoas se aglomeravam sob um toldo verde para se proteger do sol forte enquanto esperavam parentes e amigos que chegavam de viagem (fotos abaixo). A estas pessoas, porém do lado de dentro da cerca e próximo aos passageiros, somavam-se muitos carregadores de malas se acotovelando a fim de conseguir alguns clientes. Além disso, a língua falada era o creóle (derivação do francês), um dos idiomas oficiais do Haiti e que até aquele momento era totalmente estranho para mim. As pessoas falavam alto dando a impressão que estavam brigando entre si.
Esperei por cerca de 30 minutos na parte interna do aeroporto próximo à porta de saída e, como ninguém apareceu para me receber, resolvi sair e buscar auxílio para chegar a alguma unidade da ONU. Avistei um policial haitiano em frente ao portão de desembarque e me dirigi a ele na esperança que falasse inglês, no momento em que pus o pé para fora do aeroporto fui literalmente “atacado” pelos carregadores de mala os quais buscavam nada mais que alguns dólares. A atitude dos carregadores, depois tive a oportunidade de verificar várias vezes, era normal naquela situação. Pareciam estar brigando entre si, no entanto não faziam aquilo com má intenção, apenas buscavam um cliente. Confesso que fiquei um pouco assustado no começo.
Para minha sorte o policial a que me dirigi, e muitos outros que conheci no decorrer da missão, falava inglês fluentemente. Expliquei a ele meu problema e o mesmo demonstrou interesse em me ajudar.
Primeiramente o policial me perguntou se eu tinha algum número de telefone ou o endereço de onde queria ir. Respondi-lhe que queria chegar até o quartel da MINUSTAH e que não dispunha de outras informações. Em vista disso ele se dispôs a conseguir um táxi para mim e eu aceitei a sugestão, pois não vislumbrava alternativa melhor para resolver o problema. Então o policial aconselhou-me a permanecer próximo ao portão de saída e logo após sumiu no meio da multidão. Passado alguns instantes ele retornou trazendo consigo um taxista. Neste momento minha camisa já estava encharcada de suor.
Agradeci ao policial e sai dali com o motorista em direção ao táxi que estava estacionado a uns 60 metros do local. No trajeto o taxista foi cercado pelos carregadores de mala, os quais se mostravam indignados com a situação dele estar carregando minhas malas e, desta forma, lhes tirando o cliente. Alguns xingamentos daqui e outros dali, chegamos ao táxi. Neste momento descobri que meus problemas estavam apenas começando, pois o taxista falava somente creóle e francês. E eu, naquele momento, mal sabia dizer bonjour (bom dia). A única palavra que eu falava e o taxista entendia era MINUSTAH.
Iniciamos o deslocamento e logo me deparei com outro problema, eu tinha somente notas de 20 dólares e o taxista não tinha troco suficiente. Em decorrência disso o condutor tomou a iniciativa de parar em uma esquina próxima do aeroporto e logo surgiram três ou quatro pessoas com maços de dinheiro na mão, eram os cambistas. Quando entendi o que estava acontecendo entreguei uma nota de 20 dólares a um dos homens e este entrou em uma viela e sumiu no interior da vila, logo retornou com a mão cheia de gourdes (a moeda haitiana). Até aquele momento eu não tinha mínima idéia da cotação do gourde em relação ao dólar, porém em pouco tempo eu saberia que o cambista fez o câmbio de maneira correta, sem ficar me devendo nenhum centavo.
Reiniciado o deslocamento e o nosso “diálogo” resumido à palavra MINUSTAH, logo avistei algumas viaturas brancas com o símbolo da ONU na avenida em que estávamos trafegando. Pedi ao taxista que parasse pronunciando várias vezes a palavra “STOP”, o que ele, aparentemente, entendeu, parando o táxi.
Desembarquei do veículo fiz sinal para uma viatura e o condutor parou, era um militar que falava espanhol, não identifiquei a nacionalidade, ao qual expliquei o que estava ocorrendo. O referido militar me disse que aquela situação não era normal e que deveria ter alguém do Induction Training me esperando. No entanto, mesmo estando sozinho na viatura, não se ofereceu para me ajudar ou me dar uma carona até uma das bases da ONU.
Retornei ao táxi, conformado com a situação, mas apreensivo com o seu desfecho, e reiniciamos o deslocamento para algum lugar que eu não tinha a mínima idéia de onde ficava ou quanto tempo levaria. Em determinado momento, após uns 5 minutos de viagem avistei um quartel da ONU, e para minha surpresa avistei a bandeira brasileira pintada no muro. Minha salvação! Novamente falei repetidas vezes a palavra “stop” e “Brasil”, ao que o taxista entendeu e parou o táxi em frente ao portão das armas.
Era o quartel da Companhia de Fuzileiros Navais brasileiros. Paguei ao taxista a corrida no valor aproximado de 10 dólares e desloquei até a sentinela de plantão. Ao me identificar fui prontamente acolhido pelo efetivo da guarda e pelo Oficial de serviço, os quais ficaram espantados com a minha história e a maneira como havia chegado até ali. Como já passava do meio dia o comandante me convidou para almoçar e, por ironia do destino, o cardápio servido era churrasco, ou seja, a primeira refeição que fiz em solo haitiano foi um suculento churrasco, comida típica do meu Estado.
Enquanto almoçávamos e eu contava os detalhes da minha história ao comandante, o Oficial de serviço entrou em contato com o Quartel General da ONU e informou a respeito da minha situação. O Oficial responsável pelo setor de operações dos fuzileiros navais conhecia dois (Ten PMDF Carrera e Cap BMRS Freitas) dos três policiais brasileiros que já se encontravam há seis meses na missão. Então ligou para um deles e em 15 minutos chegou uma viatura da UNPOL com o capitão Freitas, Oficial da minha turma de Academia de Policia Militar, e que já estava preocupado com a minha demora e a falta de contato após o embarque no Brasil.
Após este percalço as coisas seguiram o rumo natural e fui logo engajado no treinamento da semana inicial."

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Timor Leste: UNPOL Português morre em acidente com viatura da ONU

Policiais portugueses pertencentes à Guarda Nacional Republicana - GNR - e que integravam a Missão de Paz da ONU no Timor Leste - UNMIT - envolveram-se em um acidente de trânsito no último domingo em Dili quando deslocavam para uma missão. Um dos policiais faleceu no local em decorrência da gravidade dos ferimentos. Um segundo policial foi transferido para um hospital em Darwin na Austrália onde permanece em observação sem apresentar nenhuma lesão grave.
A representante especial da ONU para Timor-Leste, Ameerah Haq, expressou as condolências à família do militar da GNR "quero prestar homenagem ao militar português que faleceu quando ia numa missão importante (...) É uma grande tragédia e gostaria de expressar as minhas mais sentidas condolências à família e amigos".
O corpo do soldado está em Darwin, na Austrália, porque segundo o comando da missão "é essa a via para se sair de Timor-leste. Há formalidades que têm de ser feitas em Darwin. Espero que o corpo possa chegar nos próximos dias a Portugal. Estamos fazendo tudo para que as formalidades terminem o mais rápido possível".
Portugal é o segundo maior contingente policial na missão no Timor Leste com um total de 198 UNPOLs, sendo 146 policiais da GNR, 51 da PSP e 1 do SEF.

domingo, 20 de junho de 2010

A Mão Inglesa no Timor Leste

Os leitores mais antigos sabem que ano passado tivemos alguns problemas com as notícias que colocamos nos blogs, tanto eu como o Carrera, com respeito ao efetivo no Timor Leste. Sem fazer qualquer tipo de julgamento sobre aquela situação, passarei a reeditar alguns posts os quais considero importantes a nível de conhecimento para os futuros UNPOLs.
Tendo em vista que um novo contingente policial brasileiro se apresentou para a Missão de Paz da ONU no Timor Leste - UNMIT - na semana que passou, publico hoje um texto sobre o Capitão Hoffmann (Brigada Militar - APM 1995), escrito em maio do ano passado, abordando a mão inglesa no Timor Leste.
"Logo ao chegar ao Timor Leste o Cap Hoffmann enfrentou uma das tantas situações inusitadas enfrentadas pelos UNPOL ao chegar em um país com cultura e hábitos diferentes dos nossos. Ocorre que no Timor o trânsito segue as regras da chamada “mão inglesa”, ou seja, o volante do veículo localiza-se no lado direito e o tráfego se dá pela esquerda. Os veículos da ONU são adaptados a esta situação. O teste direção é semelhante ao que é realizado no Brasil, durante o processo de seleção do COTER, no entanto é necessário ser refeito na missão a fim de se obter a permissão para conduzir as viaturas da ONU. Sobre a dificuldade do teste o Cap Hoffmann disse que “o teste de direção foi fácil na verdade. A primeira vez que dirigi um carro nestas condições foi no próprio teste, mas foi sem novidades, só que cansa a cabeça, pois todo o tempo tem que estar se lembrando de que tem que ficar à esquerda. Quero ver quando chegar ao Brasil e tiver que dirigir carro com volante no lado habitual...”
O teste de direção é necessário a todo UNPOL para que possa dirigir as viaturas da ONU. Consiste em prova de balisa (garagem e estacionamento) e condução do veículo com acionamento da tração 4x4. O UNPOL tem 03 oportunidades para passar no teste. No caso de não conseguir aprovação o policial permanece na missão, mas fica proibido de conduzir qualquer viatura.

sábado, 19 de junho de 2010

Operação Policial no Haiti recaptura 30 foragidos

A Diretoria de Operações da Missão de Paz da ONU no Haiti - MINUSTAH - realizou uma operação policial em Porto Príncipe no amanhecer de ontem, sexta-feira, a qual resultou na prisão de 30 criminosos que haviam fugido da Prisão Nacional por ocasião do terremoto do dia 12 de janeiro.
A operação policial teve como alvo o "Campo Jean-Marie Vicent", localizado próximo ao antigo aeroporto militar da capital haitiana e que atualmente é o local de moradia de milhares de desabrigados do terremoto.
Segundo o porta-voz da UNPOL, Jean-Francois Vezina, a operação foi batizada de "Balayage" (em português: varredura) e contou com a presença de 180 militares brasileiros do BRABATT - Brazilian Battalion - os quais tiveram a missão de cercar a área e estabelecer o perímetro de segurança para que os 165 UNPOLs e policiais haitianos realizassem a missão policial de buscas e prisões no interior do campo de refugiados. Venzina ressaltou que durante as duas horas de operação não foi registrado nenhum incidente, bem como não foram registrados tiros ou a necessidade de uso de gás lacrimogênio por parte dos integrantes da MINUSTAH.
A operação, a maior desde o terremoto de janeiro, foi realizada em meio a notícias sobre o aumento da sensação de insegurança dos moradores destes campos de refugiados em decorrência da ação de gangues que atemorizam a população cometendo crimes como o roubo e o estupro.
As fotos abaixo, de operações policiais realizadas no pós-terremoto, nos dão uma idéia do trabalho policial que está sendo realizado atualmente no Haiti.
A primeira foto mostra uma operação policial diurna para a captura de foragidos e delinquentes em um dos muitos campos de refugiados existentes atualmente na capital haitiana.

Na foto seguinte podemos visualizar um grupo de policiais da ONU realizando uma reunião preparatória para uma operação noturna. Notem que a "mesa" na qual os UNPOLs analisam e estudam o mapa do objetivo é o capô de uma viatura.

A última foto mostra a preparação do comboio de viaturas para iniciar o deslocamento até o local designado para a missão. As operações realizadas pela polícia da ONU no Haiti sempre demandam um grande número de viaturas para o transporte de pessoal (equipes policiais de coordenação, pelotões de choque, equipes táticas - SWAT, entre outras)

Fonte: Jornal Zero Hora e site abc4.com