quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

MINUSTAH: End of Mission do Tenente PMPE Couto

No próximo domingo (26) o 1º Tenente Ricardo Phillipe Couto de Araújo, da Polícia Militar do Estado de Pernambuco, deverá iniciar sua viagem de regresso ao Brasil após cumprir 12 meses de serviço na Missão de Paz da ONU no Haiti - MINUSTAH. Durante este período pudemos acompanhar, através do blog, as atividades do Tenente Couto em Porto Príncipe e constatamos, mesmo à distância, que esse Oficial soube muito bem representar sua corporação policial, seu Estado e o Brasil perante a comunidade de nações que integram a missão no Haiti.
Com certeza estes meses, passados em terras caribenhas, jamais sairão da memória do Tenente Couto. O seu trabalho já foi reconhecido e documentado através de um elogio feito pelo Comandante do Contingente Policial brasileiro no Haiti, Capitão Algenor, da Polícia Militar do Estado do Amazonas, o qual foi enviado ao COTER e ao comando da PMPE.
Como forma de também prestar nossas homenagens a este valoroso policial brasileiro, faremos abaixo um breve relato da estada do Tenente Couto no Haiti.

O INÍCIO

Ao chegar a Porto Príncipe em dezembro de 2009, o Tenente Couto ainda teve oportunidade de conviver por alguns dias com o Capitão Bassalo, da Polícia Militar do Estado do Pará, e o Tenente Heberton, da Polícia Militar do Distrito Federal, os quais estavam concluindo seu tour of duty na MINUSTAH. Na foto abaixo podemos ver, da esquerda para a direita, o Capitão Bassalo, o Tenente Heberton, o Tenente Couto e o Capitão Algenor. O registro foi feito momentos antes de se dirigirem ao aeroporto.

Logo após sua chegada, em virtude da sua qualificação técnica em cinofilia, o Tenente Couto foi designado para instalar e comandar a primeira unidade de policiamento com cães da MINUSTAH, a K9 Unit, conforme relatamos em 06 de janeiro de 2010. O trabalho incluiu o treinamento dos policiais haitianos para realizarem atividades com cães farejadores no aeroporto Internacional Toussaint Louverture, conforme podemos ver nas fotos abaixo. A segunda foto mostra a equipe da K9 Unit formada pelo Tenente Couto, um UNPOL americano e dois policias haitianos. Já a terceira foto mostra os policiais haitianos em atividade vistoriando bagagens no terminal de desembarque de passageiros da empresa America Airlines:

O TERREMOTO

Com pouco de tempo de missão o Tenente Couto enfrentou o maior de seus desafios: o terremoto de 12 de janeiro de 2010. Muito embora estivesse próximo ao aeroporto no momento do terremoto, o Tenente Couto integrou uma das primeiras equipes a chegar no Hotel Christoper, a então sede da MINUSTAH, necessitando enfrentar parte do deslocamento à pé, pois os destroços impediam o avanço das viaturas. Ao chegar no que restou do imponente prédio-sede da ONU, o Couto participou ativamente do resgate de vítimas dos escombros, em especial do Tenente Coronel Alexandre, do Exército Brasileiro, integrante do Estado Maior do Force Commander. Com especialização em ações de resgate, o Tenente Couto tomou a frente das ações e permaneceu durante aproximadamente 4 horas e meia sob os destroços, a três metros da superfície, até o salvamento do Oficial do EB, mesmo com a ameaça de ser soterrado em virtude dos tremores secundários que se sucederam, conforme a foto abaixo:Além da sede da MINUSTAH, o Tenente Couto participou ativamente nos trabalhos de resgate nas ruínas do Hotel Montana, residência oficial de muitos membros do Alto Escalão da Missão. Neste período, o Ten Couto manteve familiares e amigos informados sobre os acontecimentos através do envio de relatos a este blog e ao blog do Capitão Carrera. Publicamos estes relatos nos dias 18 de janeiro e 04 de fevereiro. Bem como publicamos em 19 de janeiro a informação e o link de que o Ten Couto aparecia em vídeo postado no Youtube auxiliando no resgaste do último sobrevivente dos escombros do Hotel Cristhoper.

O TRABALHO UNPOL

Passada a fase de resgates, a preocupação dos integrantes da UNPOL passou a ser a recaptura de mais de 4.000 apenados que fugiram da Penitenciária Nacional no dia do terremoto, bem como a manutenção da tranquilidade e segurança nos inúmeros acampamentos de desabrigados que surgiram em Porto Príncipe. Como podemos ver nas fotos seguintes, as quais foram tiradas em pontos distintos do bairro de Bel Air, sendo a primeira durante uma patrulha noturna e a segunda, em frente aos destroços da Catedral de Porto Príncipe, os trabalhos foram intensos e sob condições precárias:



No período que se seguiu ao desastre, o Haiti foi visitado por inúmeras autoridades e artistas, todos em missão humanitária. Na sua grande maioria, coube ao Tenente Couto e aos demais policiais brasileiros integrarem as equipes de segurança dessas pessoas. Como no caso das fotos abaixo, onde podemos ver o Capitão PMERJ Tadeu e o Tenente Couto junto à cantora Cristina Aguillera em frente ao Aeroporto Internacional Toussaint Louverture. Ou a segunda foto onde ambos aparecem ao lado do ator Sean Penn no Brazilian Battalion - BRABATT.
Outra experiência importante foi o contato aproximado, durante todo o ano, com integrantes da diplomacia brasileira, como no caso da foto abaixo, onde vemos todos os UNPOLs do Contingente Policial Brasileiro (Cap Algenor, Cap Honda, Cap Tadeu e Tenente Couto) junto ao Embaixador Igor Kipman.A proximidade com os militares brasileiros integrantes do BRABATT possibilitou que a atividade física, necessária para combater o stress do dia-a-dia, não fosse prejudicada no transcorrer do ano. Sempre que o trabalho permitia, o tenente Couto e os demais brasileiros (na foto está o Capitão Honda) utilizavam a academia "Brasil" instalada no interior do Batalhão de Infantaria de Paz do Brasil em Porto Príncipe.

O ano foi de intenso trabalho para os policiais brasileiros no Haiti, a convivência diuturna com policiais oriundos de mais de 40 países, participando de operações policiais no terreno, reuniões de trabalho, treinamentos e confraternizações, possibilitou ao Tenente Couto obter uma experiência incomensurável, tanto no campo pessoal, quanto no cultural e no profissional. O trabalho policial foi encerrado com uma missão muito importante: participar do planejamento e execução da segurança nas eleições presidenciais haitanas (foto - Ten Couto em pé à esquerda) ocorridas no final do mês passado e que se encontram em fase de preparação para o segundo turno que ocorrerá em janeiro de 2011.


A MEDALHA

Por fim, estes 12 meses de árduo trabalho na Missão de Paz da ONU no Haiti foi coroado com o recebimento da Medalha das Nações Unidas "In The Service of Peace" na maior cerimônia de Medal Parade realizada na MINUSTAH. Foram aproximadamente 1300 militares brasileiros agraciados e mais os quatro UNPOLs do nosso contingente policial. Na foto abaixo podemos ver os Oficiais brasileiros (da esq. para dir. - Cap Honda, Cap Tadeu e Ten Couto) perfilados juntos aos militares no pátio de formaturas do BRABATT.

Embora este breve relato das atividades do Tenente Couto durante os 12 meses em que esteve no Haiti não consiga abranger todas as suas realizações, acredito que sirva para que os leitores tenham uma idéia das várias situações que este Oficial vivenciou neste ano de 2010. Mesmo que ainda não o conheça pessoalmente, mas em virtude dos textos que nos enviou e do sentimento do dever cumprido que ele demonstra, acredito que o Couto tenha sido picado pela "mosca azul" das missões de paz e já esteja planejando, para o desespero dos familiares (rsrsrsrs....), qual a próxima Peacekeeping Operations que irá integrar.

Parabéns Couto, por todas as tuas vitórias em nome da paz!

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Costa do Marfim: Conselho de Segurança renova mandato da UNOCI

O Conselho de Segurança da ONU reuniu-se ontem (20) em Nova York e aprovou por unanimidade a renovação do mandato da Missão de Paz da ONU na Costa do Marfim - UNOCI (United Nations Operation in Côte d’Ivoire) . Esta foi a resposta do Secretário Geral, Ban Ki Moon, à determinação de retirada imediata das tropas internacionais do território marfinense imposta pelo atual Presidente Laurent Gbagbo no último sábado, sob alegação de que a ONU estaria intervindo em questões internas do país.
A Resolução nº 1962/2010 autoriza a extensão do mandato da UNOCI até o dia 30 de junho de 2011, bem como autoriza a permanência de tropas francesas pelo mesmo período. Entre outros aspectos do referido documento, podemos destacar a autorização para o envio de mais 500 peacekeepers até 31 de março de 2011, os quais serão somados aos 8.650 Boinas Azuis (militares e policiais) já existentes. O efetivo total da UNOCI será reforçado, ainda, pela transferência temporária de tropas da ONU integrantes da Missão de Paz na Libéria - UNMIL, sendo que o Conselho de Segurança autorizou o deslocamento de até 03 companhias de infantaria e 01 unidade de aviação, abrindo a possibilidade de aumentar estes números, caso seja necessário. Abaixo a transcrição de parte da Resolução nº 1962.
"Condemning in the strongest possible terms the attempts to usurp the will of the people and undermine the integrity of the electoral process, the Security Council this morning renewed the mandate of the United Nations Operation in Côte d’Ivoire (UNOCI) until 30 June 2011 and urged all the Ivorian parties and stakeholders to respect the will of the people and the outcome of the election in view of the recognition by the Economic Community of West African States (ECOWAS) and the African Union of Alassane Dramane Ouattara as the newly elected President of Côte d’Ivoire.
Unanimously adopting resolution 1962 (2010) under Chapter VII of the United Nations Charter, the Council decided to maintain UNOCI’s authorized combined military and police strength at 8,650 and extended until 31 March 2011 the temporary deployment of up to 500 additional personnel.
Also by the terms of the resolution, the Council extended authorization by up to four additional weeks the temporary redeployment from the United Nations Mission in Liberia (UNMIL) to UNOCI of a maximum of three infantry companies and one aviation unit, and affirmed its intention to authorize redeployment of further troops, as needed, between UNMIL and UNOCI on a temporary basis. It further extended until 30 June 2011 its authorization provided to the French Forces in order to support UNOCI
."
A situação nas ruas de Abidjan, bem como em várias cidades do país, como a capital Yamoussoukro, continua tensa com embates entre os partidários de Gbagbo e Ouattara. Hoje simpatizantes de Alasssane Ouattara, candidato que a ONU e a comunidade internacional reconhecem como vencedor nas eleições do dia 28 de novembro, fizeram protestos pelo país incitando a população à desobediência civil. A foto abaixo mostra uma dessas manifestações em Abidijan.

O Hotel Golf em Abidjan, onde Ouattara instalou um gabinete de governo paralelo, permanece sob segurança de tropas da ONU, como podemos ver nas fotos abaixo. Na primeira visualizamos policiais da FPU (Batalhão de Choque) do Paquistão posicionados em linha de defesa na avenida em frente ao Hotel. Na segunda podemos ver policiais da FPU da Jordânia posicionados com seus APCs (Armour Personnel Carrier)em outro ponto do entorno do Hotel. Por fim, na terceira foto podemos ver um militar togolês em uma barricada com sacos de areia em frente à entrada principal do Hotel Golf.

Fonte: DPKO

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Costa do Marfim: Presidente expulsa ONU do país

O Presidente da Costa do Marfim, Laurent Gbagbo, exigiu que a ONU retire imediatamente suas tropas do território marfinense. A exigência, no último sábado, foi feita através da porta-voz da presidência, Jacqueline Oble, em comunicado transmitido pela rede de TV estatal. Segundo Oble, a ONU e a França estariam conspirando contra o governo ao apoiarem rebeldes e ressaltou que ambas “interferiram seriamente nos assuntos internos da Costa do Marfim”.
Em comunicado Oficial emitido na noite de sábado, O Secretário Geral da ONU, Ban Ki Moon, reiterou que a ONU irá permanecer no país e cumprir o seu mandato. O comunicado dizia que “A missão da ONU, UNOCI, completará seu mandato e seguirá monitorando e documentando qualquer violação aos direitos humanos, incitação ao ódio e à violência, assim como os ataques contra as forças de paz da ONU”. Horas antes, patrulhas da UNOCI foram atacadas com tiros ao chegar na sede da ONU em Abidjan, sendo que não houve relato de feridos. Sobre estes ataques aos capacetes azuis, o comunicado ressaltou que “Ban está profundamente preocupado com os ataques contra uma patrulha das Nações Unidas e sentinelas da ONUCI executados por elementos das forças da Costa do Marfim, ao que parece as forças leais a Gbagbo. Haverá consequências para aqueles que cometeram ou planejaram tais ações ou o façam no futuro.”


ENTENDA O PROBLEMA
Laurent Gbagbo se tornou Presidente da Costa do Marfim em 2000, após eleições marcadas por polêmicas. Em 2002, após tentativa frustrada de golpe de Estado, o país se dividiu entre o sul, leal ao Gbagbo, e o norte, sob comando dos rebeldes.
O mandato de Gbagbo deveria ter sido concluído em 2005, no entanto as eleições presidenciais foram adiadas seis vezes, até que se realizasse o primeiro turno em 31 de outubro desde ano. Houve a necessidade de realização do segundo turno em 28 de novembro, sob supervisão da ONU, a quem caberia certificar o resultado final. A contagem dos votos apontou a vitória do candidato da oposição, Alassane Ouattara, com 54,1% dos votos. Este resultado foi reconhecido oficialmente pelo Representante do Secretário Geral da ONU – SRSG – na UNOCI, Choi Young-Jin, bem como pela comunidade internacional.
No entanto, Laurent Gbagbo se recusou a reconhecer o resultado, alegando que as eleições foram fraudadas pelos rebeldes que dominam o norte do país desde a guerra civil de 2002, solicitando ao Conselho Constitucional, órgão da Justiça comandando por um de seus aliados, que revisasse os votos. O pedido de revisão foi analisado e resultou na anulação de cerca de 500 mil votos dados à Ouattara, fazendo com que Gbagbo passasse a ser o vencedor com 51% dos votos. A decisão da Justiça da Costa do Marfim provocou reações da comunidade internacional, que pediu que Gbagbo aceitasse o resultado das urnas. Sem ouvir os apelos, o candidato tomou posse para o novo mandato de cinco anos. Ao mesmo tempo, Ouattarra também fez o juramento constitucional e se recusa a aceitar a revisão do resultado.
Em consequência desta controvérsia, ambos os candidatos se proclamaram vencedores. No dia 04 de dezembro, Gbagbo tomou posse em cerimônia oficial transmitida pela TV Estatal (foto esquerda) e Ouattara assumiu a presidência em cerimônia realizada no Hotel Golf com a presença de seus partidários (foto direita).
A situação de ter um presidente de fato (Gbagbo) e outro eleito (Ouattara), o qual é reconhecido pela ONU e pela comunidade internacional, fez com que as últimas duas semanas fossem de extrema tensão na capitão Abidjan. As tropas da ONU tiveram que reforçar a segurança em torno do Hotel Golf, onde está sediado o quartel general de Ouattara, como mostra a primeira foto (Sia Kambou - AFP). Ocorreram, ainda, enfrentamentos entre forças leais à Gbagbo e partidários de Ouattara na região próxima ao hotel. Militares e policiais leais ao atual presidente, Gbagbo, não descartam realizar uma açao de tomada do prédio, motivo pelo qual a tensão aumenta com o passar dos dias.

Já a segunda foto (Schalk van Zuydan - AP) e a terceira (Thierry Gouegnon - Reuters) mostram as tropas da ONU estacionadas no entorno do hotel Golf.


A tensão tomou conta das ruas de Abidjan, onde partidários de Ouattara protestaram contra o atual governo e pediram para que o líder oposicionista fosse empossado como novo presidente. Policiais e militares leais ao governo reprimiram os protestos com violência, como mostras a foto abaixo (Issouf Sanogo - AFP) e a seguinte:

A Alta Comissária da ONU para os direitos humanos, Navi Pillay, declarou ontem que "Depois dos violentos acontecimentos de quinta-feira (16) que causaram dezenas de mortos, centenas de partidários do Presidente eleito Alassane Ouattara e parentes dos mesmos foram raptados, particularmente durante a noite".
Segundo o Primeiro-Ministro designado por Ouattara, Guillaume Soro, antigo líder da guerrilha vulgarmente conhecida por Forças Novas (FN), disse ser preciso que a comunidade internacional se conscietize de que está perante “uma verdadeira loucura assassina” por parte de Gbagbo e que advertiu que a Costa do Marfim pode se transformar em uma segunda "Ruanda", em referência ao genocídio de 800.000 ruandenses em 1994.

SANÇÕES INTERNACIONAIS
O fato de o atual presidente recusar-se a deixar o cargo já gerou várias sanções no campo diplomático contra a GbaGbo. A União Africana suspendeu a Costa do Marfim por tempo indeterminado até que Alessane Ouattara assuma o poder. O Presidente dos EUA, em carta enviada a Gbabo, enfatizou que poderão ser adotadas sanções contra a Costa do Marfim caso ele continue com o intento de não reconhecer o resultado das urnas. A União Européia, por sua vez, em reunião realizada com a presença de 27 representantes de Estado, decidiu suspender o visto de Gbagbo para todo o território europeu. Esta sanção se estende a 18 colaboradores e familiares do atual presidente da Costa do Marfim. Além disso, deu prazo até o dia de ontem para que Gbagbo reconhecesse Ouattara com vencedor da eleição.
FUGA DA POPULAÇÃO
O clima de tensão ao qual está submetida a população marfinense, com a ameaça de uma nova guerra civil, já reflete nos países com os quais a Costa do Marfim faz fronteira. Segundo o ACNUR, órgão das Nações Unidas que trata das questões envolvendo refugiados, em nota Oficial emitida no dia 10 de dezembro por seu porta-voz, Andrej Mahecic, até aquela data cerca de 2.000 pessoas, na maioria crianças e mulheres, já haviam deixado o país em direção à Libéria e à Guiné Conacky. Cerca de 1.700 cruzaram para o condado de Nimba, no nordeste da Libéria, enquanto outras 200 chegaram à região de Nzerekore, na Guiné, após dois dias de caminhada.
Em entrevista ao Jornal Diário Catarinense no último sábado (18), a Embaixadora do Brasil na Costa do Marfim, Maria Auxiliadora Figueiredo, declarou que a situação é tensa e que os cerca de 100 brasileiros que vivem no país foram orientados a não sair de casa. Segundo a Embaixadora, "o governo legítimo convocou manifestações para retomar a TV estatal. O governo "de fato" quer preservar a emissora e outras instituições. É uma situação tensa. É perigoso sair à rua".
Com relação à possibilidade de uma saída diplomática para a crise, a Embaixadora Maria Auxiliadora declarou que "O governo "de fato" se diz disposto a dialogar, mas é um diálogo que parte do pressuposto de que Laurent Gbagbo seja reconhecido como presidente".
A ONU e a comunidade internacional tem uma excelente oportunidade para desfazer a imagem negativa deixada pela inércia inicial no caso de Ruanda, o qual resultou na morte de mais de 800.000 pessoas. No caso da Costa do Marfim a ação deve ser enérgica e rápida a fim de evitar que uma nova guerra civil tome conta do país, pois como sabemos, em qualquer situação bélica é a população civil quem sofre as maiores consequências.
Não temos UNPOLs brasileiros na Costa do Marfim, no entanto, segundo o site Forças Terrestres, o Brasil participa da UNOCI , desde outubro de 2003, com sete militares, sendo um da Marinha; um do Exército e um da Força Aérea no Estado-Maior da força de Paz, e três do Exército e um da Marinha como observadores militares - MilOb.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Timor Leste: Capitão Araújo assume função de instrutor da PNTL

O Capitão Rogério Araújo de Souza (APM/RS 1997), da Brigada Militar do Estado do Rio Grande do Sul, é um dos integrantes do atual contingente policial brasileiro na Missão de Paz da ONU no Timor Leste – UNMIT. Assim como o Capitão Rodrigo Campos da PMDF, o Capitão Araújo está em sua segunda Missão de Paz. No entanto, a mudança foi radical para este Oficial da Brigada Militar, pois o Capitão Araújo experimentou o frio congelante de Kosovo em 2006 (foto) e agora enfrenta o calor médio de 40° C em Dili, Capital do Timor Leste, conforme podemos verificar na foto tirada do painel de uma viatura da ONU, cujo visor indica temperatura externa de 45° C às 11:59 da manhã.

De certa forma sei o que ele está passando, pois quando cheguei ao Haiti em junho de 2007, deixei para trás 5°C no início do inverno gaúcho e encontrei 42° C no dia seguinte em Porto Príncipe, capital Haitiana. Nos primeiros dias eu suava até em pequenos deslocamentos, ou mesmo protegido à sombra de uma árvore ou marquise, pois o próprio ar que respirávamos era quente. Com o passar dos dias o corpo vai se acostumando.
Mas voltando à história do Capitão Araújo em sua segunda Missão de Paz, da mesma forma que a maioria dos UNPOLs, sua primeira designação foi para uma unidade de patrulhamento (foto), mais especificamente no distrito de Comoro, onde permaneceu por cerca de 45 dias.

Após este período inicial, surgiu a possibilidade de trabalhar na unidade denominada de UNPOL Task Force. O Capitão Araújo se inscreveu para o processo seletivo e, após análise de seu currículo e de ser submetido a uma entrevista, foi aprovado. A UNPOL Task Force Unit é composta por 11 UNPOLs (além do Cap Araújo são 02 croatas, 01 egípcio, 01 australiano, 02 portugueses, 02 filipinos, 01 romeno e 01 ucraniano), todos tendo em comum o fato de já terem integrado unidades especiais em seus países de origem. O Capitão Araújo é oriundo do 1º Batalhão de Operações Especiais – 1º BOE – de Porto Alegre, sendo um dos Oficiais especializados em ocorrências com reféns, atuando como negociador, sendo, também, instrutor de tiro da corporação.
A função principal desta unidade UNPOL é a de acompanhar a Task Force da Polícia Nacional do Timor Leste – PNTL (espécie de Batalhão de Choque ou de Operações Especiais) o qual recebe a denominação de Batalhão de Ordem Pública, com a sigla BOP(foto).

O BOP possui 03 equipes de aproximadamente 25 policiais, e atuam em apoio ao policiamento ostensivo nas situações que envolvam ocorrências de maior vulto. O serviço dos UNPOLs que os acompanham é desenvolvido em revezamento nos turnos de 23h-8h, 8h - 16h, 16h -23h.
Em algumas oportunidades os integrantes da UNPOL Task Force recebem a missão de treinar os policiais do BOP no interior do País, como no caso das fotos abaixo onde foram registrados momentos do treinamento realizado em Liquica, distante 30 km de Díli. Na primeira foto (esq. para dir.) podemos ver a equipe de instrutores composta pelo Policial Timorense Raul, UNPOL Português Antonio, Capitão Araújo e UNPOL filipino Reynaldo. Nas fotos seguintes podemos ver o Capitão Araújo em parte do treinamento oferecido aos policiais timorenses, o qual incluiu Controle de Distúrbios Civis - CDC, busca em residências, segurança VIP, instrução de Pistola Glock 19, abordagem de pessoas e veículos, uso de bastão expansivo, torções, condução de presos e utilização correta da algema.


Desejo sucesso ao Capitão Araújo, meu colega de turma da APM/RS, grande incentivador e principal responsável por eu ter me motivado a participar do processo seletivo do COTER que possibilitou que eu integrasse a MINUSTAH de junho de 2007 à junho de 2008.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Sudão: Capitão Emerson PMSC contribui com reportagem da Revista Época

O jornalista José Antonio Lima, repórter da Revista Época Online, publicou ontem uma reportagem sob o título "Sudão: a próxima tragédia da África?". O texto é muito elucidativo sobre a situação atual do Sudão e as perspectivas internacionais para a situação pós-referendo, previsto para o próximo dia 09 de janeiro de 2011, que decidirá sobre a separação do sul, de população majoritariamente negra e cristã, em relação ao norte do país, de população árabe e muçulmana.
A reportagem contou com preciosa contribuição do Capitão Emerson Fernades, da Polícia Militar de Santa Catarina-PMSC, o qual integra atualmente o efetivo da UNPOL na Missão de Paz da ONU no Sudão - UNMIS, mais especificamente na região de Wau.
Confira a reportagem na íntegra no site Época Online.

Capitão PMDF Rodrigo Campos: Breve resumo de sua 1ª estada na UNMIT em 2008

O Capitão Rodrigo Camargo Campos, da Polícia Militar do Distrito Federal - PMDF, é um dos atuais integrantes do contingente UNPOL brasileiro na Missão de Paz da ONU no Timor Leste – UNMIT. A adaptação ao ambiente da missão, aos colegas policiais internacionais, ao calor e ao idioma não foram obstáculos para este Oficial brasileiro, tendo vista que, na realidade, este é o seu segundo tour of duty naquele país do sudeste asiático.
Em sua primeira Missão de Paz na UNMIT, iniciada em 28 de abril de 2008, o Capitão Rodrigo Campos foi inicialmente designado para trabalhar como patrulheiro. As atividades principais desta função da UNPOL eram o atendimento e registro de ocorrências policiais, a realização de check points, bem como o patrulhamento nas ruas de Dili, conforme as fotos abaixo.
Este período inicial foi de grande proveito para o referido oficial, pois a atividade desenvolvida lhe oportunizou conhecer as características e o modo de atuação de policiais de diversas nacionalidades e continentes. O convívio diário com esses UNPOLs (fotos) possibilitou angariar o conhecimento e a experiência necessária para a função que passaria a exercer na sequência da missão.
Nos sessenta dias em que esteve patrulhando as ruas da capital timorense, o Capitão Rodrigo Campos aproveitou para ter um contato mais aproximado com o povo do Timor, conhecendo sua cultura e costumes, bem como verificando as dificuldades enfrentadas no dia-a-dia de um povo que luta para se reerguer após um período de dominação estrangeira.

A partir do terceiro mês de missão, em reconhecimento ao bom serviço prestado, bem como pela qualificação técnica do Capitão Rodrigo Campos, ele passou a trabalhar no Setor de Administração de Pessoal da UNMIT. Podemos dizer que, em se tratando de efetivo, este setor é o centro nervoso da missão, não só no Timor Leste, mas em todas as Missões de Paz da ONU. Entre suas atribuições encontramos as seguintes: é a responsável pelo check-in e check-out dos UNPOLs (procedimentos de recepção e integração do policial à missão e seu desligamento), designações e transferência de unidades, dispensas diversas (Compensatory Time Off - CTO, Annual Leave- AL, Sick Leave - SL, Compassionate Leave - CL) , autorização de viagens dentro e fora do Timor (UN flight books), preparar o Montly Attendance de aproximadamente 1500 policiais (entre UNPOL e Formed Police Units - FPU) , análise dos requerimentos e cálculo do saldo de folgas previstas, preparo, análise e instrução de processos de reembolso dentre diversas outras funções.

Por fim, o Capitão Rodrigo Campos desempenhou uma das funções que eu reputo das mais gratificantes para quem está servindo em uma Missão de Paz, integrar a equipe responsável pela semana inicial de treinamentos aos novos UNPOLs que chegam na missão: o Induction Training. É uma função gratificante porque você acaba conhecendo todos os UNPOLs de diferentes nacionalidades que chegam à missão e, por outro lado, você passa a ser conhecido e respeitado como profissional por todos eles, visto que a competência e qualificação técnica, como eu já disse, são requisitos fundamentais para integrar esta equipe. As fotos abaixo mostram algumas destas palestras ministradas pelo Capitão Rodrigo Campos, sendo que as duas primeiras mostram um contingente de policiais chineses.

Já as fotos seguintes mostram palestras para turmas mistas de UNPOL, visto que os policiais ao chegarem na missão são imediatamente submetidos ao Induction Training e, não raras vezes, são incluídos em turmas em andamento. Isto aconteceu comigo ao chegar no Haiti em junho de 2007, eu era o único brasileiro chegando na missão e fui incluído em uma turma de oito Guardias Civis espanhóis que já estava no terceiro dia de instrução. Ao término das instruções para os espanhóis eu permaneci sozinho mais dois dias a fim de concluir as aulas que já haviam sido ministradas quando da minha chegada.

O Capitão Rodrigo Campos trabalhou dez meses na Registry - CTO Unit e, nos últimos 5 meses de missão, em virtude de seu comprometimento com o trabalho e respeitabilidade que angariou do comando da UNMIT, desempenhou a função de comandante (Team Leader) da unidade. Este brilhante Oficial da PMDF contribuiu, em sua primeira estada no Timor Leste, para elevar o nome do Brasil e de sua corporação entre a comunidade de nações que integram a missão.

Com certeza a experiência adquirida em seu primeiro tour of duty no Timor Leste será um diferencial de qualidade e experiência para que este policial militar brasileiro obtenha o sucesso esperado nesta segunda Missão de Paz na UNMIT.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Missões de Paz da ONU: Momento importante também para o Intercâmbio Cultural

Integrar uma Operação de Paz da ONU é realmente uma experiência de vida e profissional incrível. A possibilidade de trabalhar com policiais de várias nacionalidades e continentes diferentes proporciona inúmeras situações para a troca de experiência profissional. O 1º Tenenete Mello, da Polícia Militar do Estado de São Paulo, descreveu muito bem esta situação ao mencionar, em seu relato enviado do Sudão, que conhecemos várias polícias sem precisar visitar os seus países de origem.

Somando-se a isso, existe outro ponto importante que devemos destacar, pois a convivência diária com outros UNPOLs nos proporciona ter contato com hábitos alimentares, tradições, religiões e costumes diferentes dos nossos, bem como ensinar um pouco sobre a nossa cultura.

O Capitão Rogério Araújo de Souza (APM/RS 1997) colocou em prática este intercâmbio cultural logo na chegada à Dili. Na foto abaixo, o Capitão Araújo aparece ao lado do UNPOL Chinês Chin Hu, da Induction Training Unit, ao qual ele apresentou uma das marcas registradas da cultura do Estado do Rio Grande do Sul, a tradição gaúcha do chimarrão. Segundo o Capitão Araújo, o policial chinês gostou do chimarrão e disse que na china eles tomam um chá parecido com a erva mate.

O intercâmbio cultural também abrange a área esportiva, em especial o futebol. A foto abaixo mostra um encontro de gremistas na MINUSTAH em Porto Príncipe, onde eu e o Capitão Moggar Frederes de Mattos (esq.) apresentamos nosso time ao grande amigo Miguel (centro), UNPOL da Guardia Civil Espanhola. O registro fotográfico foi feito no momento em que o Capitão Frederes presenteou o Miguel com a camisa do Grêmio, o tricolor gaúcho.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Sudão: 1º Tenente Mello - PMESP - envia relato sobre sua participação na UNMIS

O 1º Tenente Carlos Alberto Mello Silva – PMESP - (foto acima com um UNPOL do Quênia)completou nove meses de missão como integrante da UNPOL (United Police) da Missão de Paz da ONU no Sudão - UNMIS. Ao entrar no último trimestre de trabalho naquele país africano, o Tenente Mello nos enviou um relato sobre sua primeira experiência internacional à serviço das Nações Unidas.

"Sudão, Wau 07 de Dezembro de 2010

Sudão, País de contrastes incríveis. Na minha primeira experiência internacional, começo a entender como é boa minha Polícia e meu país. Nem sempre fui assim, ao ter uma limitada visão dos que só enchergam seu próprio nariz, não temos a dimensão do que Polícia representa no mundo. Para exemplificar, vou citar apenas poucos casos que se sucederam aqui nestes 9 meses de missão, alguns vão exemplificar simplesmente as diferenças das Organizações Policiais Militares Brasileiras e a UN e outros mais importantes vão dizer a nada sutil e muito importante diferença entre as Polícias do mundo e a brasileira. Principalmente no que temos de mais importante e que é reconhecido internacionalmente, Seus HOMENS.
Atualmente exerço a função de Chefe da Administração, espécie de Chefe do Estado Maior do Setor II Wau (mapa abaixo), compreendendo cinco Estados do Sudão, 120 UNPOL internacionais de 27 países diferentes, 5 Team Sites, uma população de 2,250,000 pessoas.
O Setor II é o mais populoso do Sudão e, dentro em pouco, ao que tudo indica, será parte do Sudão do Sul, ou outro nome que queiram dar ao novo país após o referendum de Janeiro. O Setor II faz fronteira com as duas piores situações enfrentadas no Sudão, South Darfur e Abyei. Situações difíceis tanto antes, mas principalmente depois do Referendum, como comentado por toda imprensa internacional, a situação em Darfur nunca deixou de ser tensa, nem no grande barril de petróleo que é Abyei.
Principalmente agora, com os Bombardeios constantes na fronteira dos dois Sudões, pois considerando a separação que se aproxima, os bombardeios ocorrem já no futuro território do Sudão do Sul. Esta situação tem nos levado a constantes e urgentes reuniões AJMC, Sigla que significa Reunião de Conciliação entre o SAF (Exército regular do NORTE) e SPLA (antigo exército rebelde da guerra civil Sudanesa e que hoje é exército regular da Região SUL). Reuniões estas que tanto eu quanto o Cap EMERSON PMSC, temos tomado parte constantemente, pois os bombardeios tem ocorrido dentro no nosso Setor, na área Sul, dentro da área de atuação do Team Site Aweil, onde se encontram dois companheiros nossos brasileiros integrantes do COMANF (Comandos Anfíbios da Marinha do Brasil), o Capitão Vilas boas e Capitão Gustavo, os quais atuam como Observadores Militares - Milob. Ainda ontem uma patrulha nossa de longo alcance (LRP) estava em uma região que foi bombardeada, tendo eles a sorte de ter saído pouco antes do bombardeio começar. Apesar de não sermos alvos (UN) de Hostilidades no sul do Sudão, o que já não acontece em Darfur, no ataque de duas semanas atrás mais de 200 Policiais Sudaneses morreram sobre bombardeio de fogo amigo, o que não nos deixa confiar que não nos atingiriam por acaso, o que nos faz sempre recomendar cuidado redobrado nestes tempos difíceis.
O SAF (norte), dá sempre a mesma justificativa para os bombardeios: estar perseguindo os JEM (exército Separatista de Darfur), dentro de áreas do Sudão do Sul. Os SPLA (sul) é claro duvidam, sabem que a intenção é arrastar o sul à uma nova guerra na intenção de postergar indefinidamente o Referendum, coisa que o Sul não se interessa nem um pouco e tendo feito até esta data vista grossa aos bombardeios, aparentemente até a declaração oficial do resultado do Referendum. Sendo que após isso, fica bem claro que estão preparados para qualquer ataque. Tendo seus exercitos já se deslocado principalmente para a região Petrolífera de Abyei (tanto Norte quanto Sul), que fica na região sul mas bem próxima à fronteira, e vale a pena lembrar que o norte tem como principal fonte de renda a extração petrolífera da Região de Abyei, região que apesar do referendum ainda não foi convenientemente dividida.
No Assunto Polícia, como já o sabem meus companheiros UNPOL (United Nations Police) do Brasil, a Torre de Babel existe e ainda que todos falem inglês, alguns falam e outros balbuciam o inglês, com certos sons dificilmente reconhecíveis até pelos próprios que tem o inglês como lingua-mãe. E, em se falando deles, os australianos do outback (interior do País) e os britânicos com muito sotaque são realmente um “desafio”. Diretamente subordinado, só para citar alguns exemplos, temos um Tenente-Coronel da Rússia (cujo salário integral em seu país é de 700 Dólares, cito o fato por espanto!!), um Major da Jordânia, um Inspetor Chefe (equivalente a Coronel) de Rwanda, o qual esteve presente no grande massacre de 1994, que mudou a estória das missões de Paz, um 1º Tenente da Gendarmeria Argentina, um Capitão do Yêmen e um Capitão Índiano, daí já se pode extrair o que se aprende em uma simples conversa cotidiana sobre as polícias, seus funcionamentos, cultura e fatos históricos importantes.

APONTAMENTOS PROFISSIONAIS

Chegamos à missão e, como todos aqueles que não têm compatriotas em funções importantes, sejam eles competentes ou não, fomos transferidos para o Team Site Wau. Ainda assim, estávamos bem por se tratar do segundo melhor lugar para ser transferido na opinião geral. Logo em nossa chegada fomos postos a fazer o serviço de “COLLOCATION”, o serviço mais básico e simples do trabalho dos UNPOLs na UNMIS, que se trata de missão sob a ègide do Capitulo 6 da UN Chart, ou seja, missão não executiva. Mas dentro de pouco tempo, tanto o Capitão PMESC Emerson quanto eu, fomos galgando rapidamente outras funções (hoje entendo porque nossas responsabilidades aqui cresceram tão vertiginosamente, pois o nosso padrão de trabalho brasileiro normal, ou seja, sem nenhum esforço extra, supera e muito a média do serviço oferecido pela maioria dos países de grandes contingentes, países com contingentes de 30 a 70 representantes, isso aqui na UNMIS, sem contar que são também grandes contingentes em qualquer Missão da ONU, havendo então várias pessoas em posição de comando desesperados por pessoas com competência e vontade de trabalhar. Da mesma forma, atualmente eu e o Cap Emerson ficamos atentos à caça de talentos para trabalhar conosco. Passamos cada vez mais a funções diferentes e com mais responsabilidades, primeiro dentro do team site, o Capitão Emerson como Training Officer, Operations Officer e Team Site Leader Substituto e eu como DDR Officer , Comunitary Police Officer, Gender Officer e Training Officer. Após desempenhar estas funções, fui destacado para servir no Setor como Operations Officer, passando a Senior Operations Officer e cobrindo ausências como Personnel Officer, PIO Officer, Security Officer e, por final, na atual recém criada posição de Chief of administration (Chefe da Administração) do Setor II, posição coringa que cobre as ausências do DSCD (Deputy Sector Commander) e do Sector Commander (Subcomandante e Comandante do Setor) e comanda a administração no Setor. Para um não UNPOL todas essas posições dizem bem pouco, mas para nós significa em geral uma coisa muito importante, EXPERIÊNCIA, coisa que levarei comigo devolta ao meu país, meu Estado e minha Polícia.

AS NAÇÕES UNIDAS E ALGUNS APONTAMENTOS PESSOAIS:

As condições de vida no Sudão são precárias, mas ao mesmo tempo, nos ensina muito, pois a qualidade de vida que temos aqui vai de boa (para quem reside na capital Khartoum), até absurdas para quem reside nas RSBs (Referendum Support Bases), recém criadas Bases de Apoio para o Referendum, que são tendas no meio do nada sem as mínimas condições de segurança e de vida, higiene e acesso a coisas básicas como itens de subsistência e água potável (quase inexistente nestes lugares), ou como se diz na PMESP, para sobreviver cada um tem que “dar seus pulos”.
A maioria dos UNPOLs vivem fora da área dos Containeres (MSA) ao preço de quase 650 Dólares por mês, então pelo preço muitos optam em viver fora alugando casas na cidade próxima, acontecendo naturalmente frequentes assaltos em suas casas, sendo, é claro, que visado seu dinheiro, seus notebooks, relógios e celulares. No final o barato acaba saindo caro, pois nas casas também não há energia elétrica durante a noite e consequentemente não há ar-condicionado. Ao contrário do que se pode pensar, no Sudão, ar-condicionado não é ítem de luxo, pois temos aqui apenas duas estações do ano: a seca e a chuvosa. Na seca não chove por nada neste mundo e na chuvosa não para de chover por nada e a temperatura oscila entre 30 e 40 graus, mas na estação seca ela pode atingir até 54 º C em Khartoum, fazendo o asfalto por lá ficar um pouco liquefeito, como mostra a foto abaixo.
É claro que a situação se ameniza seguindo para o Sul, mas na estação seca mesmo assim não deixa de ser quase insuportável e impedir atividades fisicas antes das 17:30 ou 18:00 horas. O mapa abaixo mostra a média anual de temperatura do país, nas áreas alaranjadas e vermelhas, próximo à Khartoum, a média anual ultrapassa os 40 graus celsius.

Como todo UNPOL, (mais recentes e de missões mais antigas e anteriores já encerradas, como por exemplo Angola ou Kosovo) sabem, que nosso lar aqui é nosso container (foto abaixo), um espaço de aproximadamente 4x1,5 que chamamos de casa e do qual sentimos falta quando estamos em outros lugares que não dentro de nossa “casa”.Só agora entendo as pessoas que diziam que nos acostumamos a qualquer situação, tanto boas como ruins, passando a achar até muito boa nossa humilde situação frente à outros, como por exemplo, os destacados para um RSB. Em resumo, ter energia elétrica e uma cama, aguá potável e onde comprar algo para cozinhar por aqui é um luxo.
Como experiência pessoal é algo impagável ter oportunidade de conhecer vários policiais de todo o mundo e consequentemente suas Polícias, sem ter de visitar cada um dos seus Países. Questionando-os acerca do funcionamento de suas respectivas corporações e, com isso, angariando importantes informações e, mais importante ainda, meios cada vez melhores de comparação de nossa realidade brasileira de Polícia aplicada principalmente ao mesmo próprio estado, aumentando sempre a cultura recebida e que assim esperamos, seja um dia utilizada, fazendo um benchmarking com suas qualidades reconhecidas dentro daquelas que nós ainda não conquistamos, tanto pessoal como profissionalmente, dando também à nós a grata sensação de estarmos na dianteira do modo de fazer “Polícia” mundialmente.
Sabemos, por conversar com Amigos UNPOLs brasileiros que estão em outras missões, a grande diferença de organização e administração de uma missão para outra, principalmente quando estamos em atuação do Capítulo 6 (instrução e fiscalização) ou do capítulo 7 (missão executiva de Polícia) da UN CHART . Por nossa própria experiência, podemos falar da UNMIS, e nela, assim como no Brasil, não se excluindo São Paulo, a Segurança Pública (Leia-se Polícia) é preterida em qualquer orçamento governamental, sendo incrível a despreocupação dos governos e organizações com a Polícia e outras instituições de segurança, enfrentando aqui também falta de veículos, computadores, espaço físico de escritórios, peças de reposição para consertos e outros materiais, tendo também de dar os nossos “Pulos”, para cumprir nosso mandato.

AGRADECIMENTOS

Não poderia mesmo terminar este relatório e relato, sem agradecer... Agradecer a oportunidade que me foi dada por Deus primeiramente, depois pelos Exmo Comandante Geral da Polícia Militar do Estado de São Paulo e pelo Sr. Subcomandante da mesma Gloriosa a quem eu Sirvo, também pelo voto de confiança em que eu seria digno de representar meu País, meu Estado e minha Polícia perante os olhos do resto do mundo. Voltarei com esta missão cumprida, mas deixo saber que este ano foi um dos mais difíceis que já passei, devido a vários acontecimentos também na minha vida pessoal, e por isso o apoio, ainda que telefônico, da família foi incontestável e talvez não conseguisse estar isolado, não fosse o apoio do Capitão Emerson que mais do que um superior, tem sido um grande amigo, a quem devo respeito também por sua imcomparável competência e profissionalismo, mas principalmente pelo coleguismo durante os momentos difíceis desta jornada árdua de estarmos longe de tudo que amamos, abrindo mão de tudo que gostamos de fazer para cumprir um dever, sempre pronto a dizer as palavras amigas “ Sabia que era pau veio porque quis...”.
Brincadeiras à parte, aqui fica mesmo, antes do fim, o meu Muito Obrigado.
E voltarei ainda com mais certeza de que no Brasil somos artistas da Segurança reconhecidos no mundo inteiro e que nossa organização Administrativa e Operacional é invejável e não deve nada às maiores organizações do mundo. Sendo o assunto competência, comprometimento, lealdade ou constância, estamos sempre à frente e isso se deve também àqueles que vieram antes de mim e aqueles que virão, para manter o nome do Brasil sempre alto em qualquer mente que necessitar de homens que realizam perfeitamente o “Missão dada, Missão Cumprida”. "
Na foto abaixo podemos ver o Tenente Mello durante uma das várias instruções dadas aos policiais sudaneses como parte da estratégia de preparação para o referendum de janeiro.

Desejamos sucesso ao Tenente Mello e ao Capitão Emerson nesta etapa final da missão, sabendo que, conforme seu relato, o trabalho dos policiais brasileiros mais uma vez foi reconhecido pela comunidade de nações que integra o contingente policial da UNMIS.