quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Sudão: 1º Tenente Mello - PMESP - envia relato sobre sua participação na UNMIS

O 1º Tenente Carlos Alberto Mello Silva – PMESP - (foto acima com um UNPOL do Quênia)completou nove meses de missão como integrante da UNPOL (United Police) da Missão de Paz da ONU no Sudão - UNMIS. Ao entrar no último trimestre de trabalho naquele país africano, o Tenente Mello nos enviou um relato sobre sua primeira experiência internacional à serviço das Nações Unidas.

"Sudão, Wau 07 de Dezembro de 2010

Sudão, País de contrastes incríveis. Na minha primeira experiência internacional, começo a entender como é boa minha Polícia e meu país. Nem sempre fui assim, ao ter uma limitada visão dos que só enchergam seu próprio nariz, não temos a dimensão do que Polícia representa no mundo. Para exemplificar, vou citar apenas poucos casos que se sucederam aqui nestes 9 meses de missão, alguns vão exemplificar simplesmente as diferenças das Organizações Policiais Militares Brasileiras e a UN e outros mais importantes vão dizer a nada sutil e muito importante diferença entre as Polícias do mundo e a brasileira. Principalmente no que temos de mais importante e que é reconhecido internacionalmente, Seus HOMENS.
Atualmente exerço a função de Chefe da Administração, espécie de Chefe do Estado Maior do Setor II Wau (mapa abaixo), compreendendo cinco Estados do Sudão, 120 UNPOL internacionais de 27 países diferentes, 5 Team Sites, uma população de 2,250,000 pessoas.
O Setor II é o mais populoso do Sudão e, dentro em pouco, ao que tudo indica, será parte do Sudão do Sul, ou outro nome que queiram dar ao novo país após o referendum de Janeiro. O Setor II faz fronteira com as duas piores situações enfrentadas no Sudão, South Darfur e Abyei. Situações difíceis tanto antes, mas principalmente depois do Referendum, como comentado por toda imprensa internacional, a situação em Darfur nunca deixou de ser tensa, nem no grande barril de petróleo que é Abyei.
Principalmente agora, com os Bombardeios constantes na fronteira dos dois Sudões, pois considerando a separação que se aproxima, os bombardeios ocorrem já no futuro território do Sudão do Sul. Esta situação tem nos levado a constantes e urgentes reuniões AJMC, Sigla que significa Reunião de Conciliação entre o SAF (Exército regular do NORTE) e SPLA (antigo exército rebelde da guerra civil Sudanesa e que hoje é exército regular da Região SUL). Reuniões estas que tanto eu quanto o Cap EMERSON PMSC, temos tomado parte constantemente, pois os bombardeios tem ocorrido dentro no nosso Setor, na área Sul, dentro da área de atuação do Team Site Aweil, onde se encontram dois companheiros nossos brasileiros integrantes do COMANF (Comandos Anfíbios da Marinha do Brasil), o Capitão Vilas boas e Capitão Gustavo, os quais atuam como Observadores Militares - Milob. Ainda ontem uma patrulha nossa de longo alcance (LRP) estava em uma região que foi bombardeada, tendo eles a sorte de ter saído pouco antes do bombardeio começar. Apesar de não sermos alvos (UN) de Hostilidades no sul do Sudão, o que já não acontece em Darfur, no ataque de duas semanas atrás mais de 200 Policiais Sudaneses morreram sobre bombardeio de fogo amigo, o que não nos deixa confiar que não nos atingiriam por acaso, o que nos faz sempre recomendar cuidado redobrado nestes tempos difíceis.
O SAF (norte), dá sempre a mesma justificativa para os bombardeios: estar perseguindo os JEM (exército Separatista de Darfur), dentro de áreas do Sudão do Sul. Os SPLA (sul) é claro duvidam, sabem que a intenção é arrastar o sul à uma nova guerra na intenção de postergar indefinidamente o Referendum, coisa que o Sul não se interessa nem um pouco e tendo feito até esta data vista grossa aos bombardeios, aparentemente até a declaração oficial do resultado do Referendum. Sendo que após isso, fica bem claro que estão preparados para qualquer ataque. Tendo seus exercitos já se deslocado principalmente para a região Petrolífera de Abyei (tanto Norte quanto Sul), que fica na região sul mas bem próxima à fronteira, e vale a pena lembrar que o norte tem como principal fonte de renda a extração petrolífera da Região de Abyei, região que apesar do referendum ainda não foi convenientemente dividida.
No Assunto Polícia, como já o sabem meus companheiros UNPOL (United Nations Police) do Brasil, a Torre de Babel existe e ainda que todos falem inglês, alguns falam e outros balbuciam o inglês, com certos sons dificilmente reconhecíveis até pelos próprios que tem o inglês como lingua-mãe. E, em se falando deles, os australianos do outback (interior do País) e os britânicos com muito sotaque são realmente um “desafio”. Diretamente subordinado, só para citar alguns exemplos, temos um Tenente-Coronel da Rússia (cujo salário integral em seu país é de 700 Dólares, cito o fato por espanto!!), um Major da Jordânia, um Inspetor Chefe (equivalente a Coronel) de Rwanda, o qual esteve presente no grande massacre de 1994, que mudou a estória das missões de Paz, um 1º Tenente da Gendarmeria Argentina, um Capitão do Yêmen e um Capitão Índiano, daí já se pode extrair o que se aprende em uma simples conversa cotidiana sobre as polícias, seus funcionamentos, cultura e fatos históricos importantes.

APONTAMENTOS PROFISSIONAIS

Chegamos à missão e, como todos aqueles que não têm compatriotas em funções importantes, sejam eles competentes ou não, fomos transferidos para o Team Site Wau. Ainda assim, estávamos bem por se tratar do segundo melhor lugar para ser transferido na opinião geral. Logo em nossa chegada fomos postos a fazer o serviço de “COLLOCATION”, o serviço mais básico e simples do trabalho dos UNPOLs na UNMIS, que se trata de missão sob a ègide do Capitulo 6 da UN Chart, ou seja, missão não executiva. Mas dentro de pouco tempo, tanto o Capitão PMESC Emerson quanto eu, fomos galgando rapidamente outras funções (hoje entendo porque nossas responsabilidades aqui cresceram tão vertiginosamente, pois o nosso padrão de trabalho brasileiro normal, ou seja, sem nenhum esforço extra, supera e muito a média do serviço oferecido pela maioria dos países de grandes contingentes, países com contingentes de 30 a 70 representantes, isso aqui na UNMIS, sem contar que são também grandes contingentes em qualquer Missão da ONU, havendo então várias pessoas em posição de comando desesperados por pessoas com competência e vontade de trabalhar. Da mesma forma, atualmente eu e o Cap Emerson ficamos atentos à caça de talentos para trabalhar conosco. Passamos cada vez mais a funções diferentes e com mais responsabilidades, primeiro dentro do team site, o Capitão Emerson como Training Officer, Operations Officer e Team Site Leader Substituto e eu como DDR Officer , Comunitary Police Officer, Gender Officer e Training Officer. Após desempenhar estas funções, fui destacado para servir no Setor como Operations Officer, passando a Senior Operations Officer e cobrindo ausências como Personnel Officer, PIO Officer, Security Officer e, por final, na atual recém criada posição de Chief of administration (Chefe da Administração) do Setor II, posição coringa que cobre as ausências do DSCD (Deputy Sector Commander) e do Sector Commander (Subcomandante e Comandante do Setor) e comanda a administração no Setor. Para um não UNPOL todas essas posições dizem bem pouco, mas para nós significa em geral uma coisa muito importante, EXPERIÊNCIA, coisa que levarei comigo devolta ao meu país, meu Estado e minha Polícia.

AS NAÇÕES UNIDAS E ALGUNS APONTAMENTOS PESSOAIS:

As condições de vida no Sudão são precárias, mas ao mesmo tempo, nos ensina muito, pois a qualidade de vida que temos aqui vai de boa (para quem reside na capital Khartoum), até absurdas para quem reside nas RSBs (Referendum Support Bases), recém criadas Bases de Apoio para o Referendum, que são tendas no meio do nada sem as mínimas condições de segurança e de vida, higiene e acesso a coisas básicas como itens de subsistência e água potável (quase inexistente nestes lugares), ou como se diz na PMESP, para sobreviver cada um tem que “dar seus pulos”.
A maioria dos UNPOLs vivem fora da área dos Containeres (MSA) ao preço de quase 650 Dólares por mês, então pelo preço muitos optam em viver fora alugando casas na cidade próxima, acontecendo naturalmente frequentes assaltos em suas casas, sendo, é claro, que visado seu dinheiro, seus notebooks, relógios e celulares. No final o barato acaba saindo caro, pois nas casas também não há energia elétrica durante a noite e consequentemente não há ar-condicionado. Ao contrário do que se pode pensar, no Sudão, ar-condicionado não é ítem de luxo, pois temos aqui apenas duas estações do ano: a seca e a chuvosa. Na seca não chove por nada neste mundo e na chuvosa não para de chover por nada e a temperatura oscila entre 30 e 40 graus, mas na estação seca ela pode atingir até 54 º C em Khartoum, fazendo o asfalto por lá ficar um pouco liquefeito, como mostra a foto abaixo.
É claro que a situação se ameniza seguindo para o Sul, mas na estação seca mesmo assim não deixa de ser quase insuportável e impedir atividades fisicas antes das 17:30 ou 18:00 horas. O mapa abaixo mostra a média anual de temperatura do país, nas áreas alaranjadas e vermelhas, próximo à Khartoum, a média anual ultrapassa os 40 graus celsius.

Como todo UNPOL, (mais recentes e de missões mais antigas e anteriores já encerradas, como por exemplo Angola ou Kosovo) sabem, que nosso lar aqui é nosso container (foto abaixo), um espaço de aproximadamente 4x1,5 que chamamos de casa e do qual sentimos falta quando estamos em outros lugares que não dentro de nossa “casa”.Só agora entendo as pessoas que diziam que nos acostumamos a qualquer situação, tanto boas como ruins, passando a achar até muito boa nossa humilde situação frente à outros, como por exemplo, os destacados para um RSB. Em resumo, ter energia elétrica e uma cama, aguá potável e onde comprar algo para cozinhar por aqui é um luxo.
Como experiência pessoal é algo impagável ter oportunidade de conhecer vários policiais de todo o mundo e consequentemente suas Polícias, sem ter de visitar cada um dos seus Países. Questionando-os acerca do funcionamento de suas respectivas corporações e, com isso, angariando importantes informações e, mais importante ainda, meios cada vez melhores de comparação de nossa realidade brasileira de Polícia aplicada principalmente ao mesmo próprio estado, aumentando sempre a cultura recebida e que assim esperamos, seja um dia utilizada, fazendo um benchmarking com suas qualidades reconhecidas dentro daquelas que nós ainda não conquistamos, tanto pessoal como profissionalmente, dando também à nós a grata sensação de estarmos na dianteira do modo de fazer “Polícia” mundialmente.
Sabemos, por conversar com Amigos UNPOLs brasileiros que estão em outras missões, a grande diferença de organização e administração de uma missão para outra, principalmente quando estamos em atuação do Capítulo 6 (instrução e fiscalização) ou do capítulo 7 (missão executiva de Polícia) da UN CHART . Por nossa própria experiência, podemos falar da UNMIS, e nela, assim como no Brasil, não se excluindo São Paulo, a Segurança Pública (Leia-se Polícia) é preterida em qualquer orçamento governamental, sendo incrível a despreocupação dos governos e organizações com a Polícia e outras instituições de segurança, enfrentando aqui também falta de veículos, computadores, espaço físico de escritórios, peças de reposição para consertos e outros materiais, tendo também de dar os nossos “Pulos”, para cumprir nosso mandato.

AGRADECIMENTOS

Não poderia mesmo terminar este relatório e relato, sem agradecer... Agradecer a oportunidade que me foi dada por Deus primeiramente, depois pelos Exmo Comandante Geral da Polícia Militar do Estado de São Paulo e pelo Sr. Subcomandante da mesma Gloriosa a quem eu Sirvo, também pelo voto de confiança em que eu seria digno de representar meu País, meu Estado e minha Polícia perante os olhos do resto do mundo. Voltarei com esta missão cumprida, mas deixo saber que este ano foi um dos mais difíceis que já passei, devido a vários acontecimentos também na minha vida pessoal, e por isso o apoio, ainda que telefônico, da família foi incontestável e talvez não conseguisse estar isolado, não fosse o apoio do Capitão Emerson que mais do que um superior, tem sido um grande amigo, a quem devo respeito também por sua imcomparável competência e profissionalismo, mas principalmente pelo coleguismo durante os momentos difíceis desta jornada árdua de estarmos longe de tudo que amamos, abrindo mão de tudo que gostamos de fazer para cumprir um dever, sempre pronto a dizer as palavras amigas “ Sabia que era pau veio porque quis...”.
Brincadeiras à parte, aqui fica mesmo, antes do fim, o meu Muito Obrigado.
E voltarei ainda com mais certeza de que no Brasil somos artistas da Segurança reconhecidos no mundo inteiro e que nossa organização Administrativa e Operacional é invejável e não deve nada às maiores organizações do mundo. Sendo o assunto competência, comprometimento, lealdade ou constância, estamos sempre à frente e isso se deve também àqueles que vieram antes de mim e aqueles que virão, para manter o nome do Brasil sempre alto em qualquer mente que necessitar de homens que realizam perfeitamente o “Missão dada, Missão Cumprida”. "
Na foto abaixo podemos ver o Tenente Mello durante uma das várias instruções dadas aos policiais sudaneses como parte da estratégia de preparação para o referendum de janeiro.

Desejamos sucesso ao Tenente Mello e ao Capitão Emerson nesta etapa final da missão, sabendo que, conforme seu relato, o trabalho dos policiais brasileiros mais uma vez foi reconhecido pela comunidade de nações que integra o contingente policial da UNMIS.

Um comentário:

Valdemir disse...

Parabéns pela forma como transmite aos que não conhecem uma descrição muito clara do que é o Sudão.
Ratifico cada uma das informações.
Servi como Admin Officer (esta função estava mesmo sendo gestada ainda) no Setor 1 durante 11 meses da minha Missão. Seguramente é uma experiência fantástica sob vários aspectos.
Obrigado também por reconhecer e reafirmar o ótimo conceito que nós brasileiros qua estivemos antes na UNMIS estabelecemos aí.
A experiência da Missão é definitivamente algo "inenarrável" por todas as circunstâncias, culturas, práticas, conhecimentos e dificuldades (porque não?) a que se é exposto durante um ano.
Por isso eu (sem nenhum medo da concorrência...rsrs), incentivo a cada policial que tenha a intenção de participar de uma Missão de Paz para que vá mesmo.
Por si, por sua Corporação e pelo Brasil.
Somos poucos na missão. Mas costumo dizer que somos "disputados aos tapas" para as funções chaves, onde as autoridades da missão precisam de pessoas dotadas de grande profissionalismo, capacidade técnica e disposição para o trabalho.
Quando nosso governo der maior apoio ao seu efetivo policial nas missões, seremos "descobertos" também por NY e assim assumiremos posições ainda mais importantes.
Felicidades aos companheiros do Sudão.
* Cujo número ínfimo de 3 foi reduzido este ano para 2.
TC Valdemir